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  • Gustavo Loiola

Do viés inconsciente ao racismo estrutural

Vivemos em um grande momento de reflexão. Precisar se isolar de maneira forçada ou romper com o status quo da rotina que todos estávamos vivendo, fez com que a sociedade se tornasse mais reflexiva: parece que todos resolveram parar e observar tudo o que acontece de fato no nosso planeta. Isso fez com que vários assuntos viessem a tona, conflitos pessoais e políticos, discussões econômicas e principalmente todas as desigualdades que existem por ai.


O racismo foi uma delas. Com certeza você acompanhou o que aconteceu com o George Floyd lá nos Estados Unidos, e como desencadeou uma grande onda global, impulsionando uma série de movimentos. Provavelmente, isso fez você também abrir os olhos para a realidade do Brasil, para os inúmeros casos de violência semelhante que temos por aqui, além das múltiplas situações cotidianas de racismo, que muitas vezes passavam despercebidas - ou eram normalizadas pela população - pois afinal de contas a máxima “Não existe racismo no Brasil” , sempre esteve no vocabulário popular.


Acontece que sim, somos um país racista. Os números mostram que apesar do nosso país ter a maioria da sua população de negros ou pardos, as oportunidades não chegam nem perto de serem mais favoráveis a esse grupo. Estudos mostram que essa parte da população é também a maioria de desempregados, de vítimas de violência policial, de moradores de regiões desassistidas, da população carcerária, da informalidade…e por ai vai. No ambiente corporativo, por exemplo, segundo estudo do Instituto Ethos com as 500 empresas e maior faturamento do Brasil, os negros (homens) representam menos de 5% em cargos de executivos ou conselhos de administração; Outro dado que chama atenção é que apesar de 56% dos chefes de família por aqui serem mulheres negras, nas nossas maiores empresas, nenhuma mulher negra está em cargos de alta gestão.


Porque será que isso acontece?


Muito se atribui ao conceito de racismo estrutural, que acaba sendo um sistema abrangente de preconceito racial entre instituições e sociedade; Por causa disso, determinado grupo acaba sendo mais privilegiado que o outro de uma forma bastante enraizada. Além de toda a concepção histórica da sociedade, e o sistema econômico que construiu boa parte dos países, a neurociência também ajuda a nos explicar essa situação.


O chamado viés inconsciente é um processo onde se associam estereótipos ou atitudes em relação a um grupo de pessoas sem percepção consciente, o que muitas vezes resultam em ações e práticas contrárias as intenções ou valores ditos explícitos. Em determinados momentos, isso gera tomadas de decisão injustas ou tendenciosas, por exemplo em um processo de contração ou promoção de cargos e salários, atendimento e acesso a serviços públicos, cuidados médicos, etc.


O gráfico abaixo, adaptado do norte-americano National Equity Project de Kathleen Osta e Hugh Vasquez, nos ajuda a entender um pouco mais a relação entre o viés inconsciente e o racismo estrutural:


História, políticas e práticas:

O conceito de raça foi criado para justificar a escravização de pessoas da África, que foi a força econômica de muitos países, especialmente no Brasil. A justificativa de que os negros eram uma raça inferior e menos humana, foi o que potencializou a escravidão por centenas de anos, além das narrativas nacionais (ideologia e sistema de crenças) justificarem os maus tratos e a desigualdade. Além disso, um conjunto de políticas e práticas foram criadas para consolidar e proteger o poder econômico, social, cultural e político de maneira vantajosa para as pessoas brancas ampliando a desvantagem para a população negra.


Resultados desiguais e disparidades sociais

Desigualdades oriundas de políticas publicas e impactos nas áreas da saude, habitação, emprego, educação e expectativa de vida - reforçam as crenças e ideologias de supremacia racial, narrativa dominante que usa essas desigualdades como evidencia da superioridade de um grupo em relação a outro.


No caso do Brasil, durante e pós o período da escravidão diversas iniciativas enfatizaram isso, como a Lei n. 1 - que proibia negros de irem a escola, Lei das Terras - que proibia o direito a propriedade, ou a Lei dos vadios e capoeiras (lançada pós Abolição) - que decretava que pessoas perambulando pelas ruas, sem trabalho ou residência comprovada, iriam pra cadeia.


Ao mesmo tempo, o país começou uma grande discussão sobre a necessidade de um embranquecimento da população - já naquela época em sua maioria negra, que defendia a tese de que depois de várias gerações de miscigenação entre brancos e negros, a raça negra iria progredir culturalmente e geneticamente até um possível desaparecimento. Nesse período houveram grandes incentivos do governo brasileiro para a vinda de europeus para cá, com doação de terras e suporte financeiro.


Associações e suposições

Narrativa dominante sobre raça (família, mídia, sociedade) juntamente com arranjos estruturais racializados e com resultados diferentes por raça. A sociedade recebe diferentes estímulos que a leva a acreditar que os negros são inferiores, ao observar sempre os negros em posições inferiores, realizando funções que remetem a servidão…isso acontece de maneira consciente e inconsciente.

Além disso, cargos e posições de destaque, na televisão, nos jornais ou na política, tem pouca representatividade negra - basta olhar para a estética das novelas por exemplo. O ideal de beleza reproduzido nos meios de comunicação em massa também reforça esse tipo de estereotipo.


Da mesma forma que a neurociência traz um aprendizado sobre o viés inconsciente, é possível também caminhar para uma solução. O nosso cérebro, sendo um organismo vivo, continua a crescer e se desenvolver, inclusive na idade adulta. Embora seja difícil evitar absorver mentalmente alguns desses estereótipos negativos, as associações e os preconceitos que estão implícitos lá dentro da nossa cabeça são sim maleáveis. Isso significa que é possível mudar o nosso modelo mental, construindo associações diferentes que consequentemente vão gerar novas formas de agir e se comportar, estimulando a inclusividade, a equidade e o respeito.


O conhecimento é uma das principais formas de se evitar o preconceito, e mais importante ainda entender tudo o que influencia os nossos comportamentos e atitudes. Trazer para a consciência todas essas questões, potencializa a discussão e a conversa sobre isso dentro de casa, com os amigos ou no trabalho, aprofundando o debate e construindo um pensamento mais questionador.


Em nosso papel como cidadão é mandatório conhecer mais sobre como surgiram as desigualdades em nosso pais - especialmente as raciais - bem como entender o porque esse panorama continua e se perpetua. Como líderes, devemos ter a capacidade de confrontar a história e como isso contribuiu para o enraizamento do racismo estrutural por aqui, e só assim, sermos capazes de estimular a criação de comunidades e organizações onde todos possam ter acesso as oportunidades necessárias para prosperar.


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